sábado, 13 de maio de 2017

Insónias

Clic. Apagou a luz ao mesmo tempo que fechou os olhos. Estava escuro, mas os pensamentos brilhavam como pirilampos coloridos na cabeça dela. Esforçou-se para fazer com eles o que fez com o candeeiro, embora não quisesse apagá-los. Queria apenas adormecê-los. Despir-se deles como fez com a roupa que tinha vestida antes de entrar na cama. O corpo estava imóvel, o quarto em silêncio, mas os pensamentos, esses, não tinham sossego. Continuavam brilhantes, a saltitar, a chamar a atenção como uma criança mimada. Talvez se os embalar como fazem as mães para adormecer os filhos quando lhes pegam ao colo, pensou. Talvez se lhes der uma palmadinha contida nas costas, continuamente. Talvez cantar-lhes uma canção bonita ao ouvido. Talvez assim os pensamentos adormeçam. Fechou os olhos com mais força. Tanta força que quase sentiu a pressão das pestanas contra a pele. Não, hoje não vou conseguir vencer a força dos pensamentos que parecem pirilampos coloridos na minha cabeça. Talvez o sono os vença. Eu não.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Sobre a teimosia

- Sabes uma coisa?
- Diz-me.
- Só tu cabes dentro da palavra tudo.
- Não, tu.
- Não, tu.
- Tu!
- Tu!

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

w*o*r*d*s


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

E a moral da história?

Aquele reino ficava mesmo no cimo de uma montanha gigante, a tocar no céu. Apesar da montanha ser assim gigante, o reino era o mais pequenino do mundo inteiro. Ali todas as pessoas viviam quase felizes, todos os dias. Só não eram totalmente felizes, porque ainda ninguém tinha conseguido ajudar a princesa do reino a concretizar o sonho dela. Sim, a princesa tinha um sonho. De manhã, da janela do quarto, que ficava mesmo encostada a uma nuvem no céu, a princesa via um animal a brincar lá em baixo, na floresta que existia no fundo da montanha, um sítio onde nenhum dos habitantes do reino tinha estado, porque era impossível descer até lá. O animal que a princesa via era diferente de todos os que existiam no reino. Era assim como um cavalo, mas tinha um corno na cabeça e no corpo tinha todas as sete cores do arco íris, vermelho, amarelo, verde, laranja, azul claro, azul um bocadinho mais escuro e violeta. Tinham dito à princesa que aquele era um animal mágico. Chamavam-lhe unicórnio. E todos os dias a princesa pensava numa forma de o unicórnio conseguir subir a montanha, para se juntar aos animais do pequeno reino e nunca mais ter de brincar sozinho lá em baixo. Era uma preocupação que ela tinha desde sempre. Certo dia, os habitantes do reino juntaram-se todos e decidiram que no próximo aniversário da princesa, iam entregar-lhe o unicórnio de presente. Então, a partir desse momento, todas as pessoas decidiram que essa seria a tarefa mais importante da vida delas.
Um dos habitantes, que era o mais forte de todos e aquele que tinha as melhores ideias, sugeriu apanharem o maior número de estrelas do céu e com elas fazer umas escadas que chegassem até ao fundo da montanha. O problema era conseguir apanhar as estrelas do céu. Porque toda a gente sabe que as estrelas são muito difíceis de se deixar apanhar. São demasiado cintilantes e ninguém consegue olhar para elas de frente. No meio de grande confusão, com todos os habitantes reunidos, alguém pôs um dedo no ar e disse: eu já sei! Durante o dia, quando todas as estrelas estão ainda a dormir, saltamos para cima de uma nuvem e apanhamo-las com muito cuidado. E assim foi, todos os dias, quando todas as estrelas estavam ainda a dormir, e com a princesa do reino distraída a passear pelos jardins do palácio, os habitantes do reino lá iam subindo às nuvens para apanharem o maior número de estrelas possível e com elas fazer umas escadas. Estava quase a chegar o dia de aniversário da princesa, quando alguém disse: Então, mas esperem lá… agora como vamos fazer a tal escada com as estrelas? É que elas, além de cintilantes, são um bocadinho teimosas e muito livres… O mesmo habitante que tinha dado a ideia de apanhar estrelas, voltou a pôr o dedo no ar e disse: oh, dizemos que vamos fazer a melhor surpresa do mundo à nossa princesa e podemos convencê-las a dar as mãos, todas elas, até chegarem lá abaixo. Isso mesmo, é a melhor ideia, disseram todos os outros habitantes ao mesmo tempo. Fizeram tanto alarido que até a princesa veio à janela perguntar o que se passava. Por sorte, conseguiram disfarçar e ela não desconfiou mesmo de nada. Na noite que era a véspera do aniversário da princesa, com as estrelas já todas convencidas e entusiasmadas com a ideia e com uma luz que não ferisse os olhos dos habitantes do reino, a magia aconteceu. Todas deram as mãos, muito apertadas, até fazerem uma enorme corrente tipo umas escadas, que chegaram até ao fundo a montanha. A primeira estrela a tocar o solo, tinha a missão de chamar o unicórnio. E ela chamou. E ele veio, muito contente. Naquele ano, o dia de aniversário da princesa, foi o mais feliz de sempre no reino. Porque a princesa fez o sorriso mais bonito e porque o unicórnio nunca mais teve de brincar sozinho.

quarta-feira, 9 de março de 2016

O que os homens esperam das mulheres, o que as mulheres pensam dos homens, o que eu nem ninguém sabe como fazer bem. Ou será que sabe?

Vou tentar escrever tudo isto sem me engasgar, que é como quem diz sem tropeçar nas letras. Para eles, devemos ser, acima de tudo, inteligentes e donas de um sentido de humor apurado,  muito amorosas e dedicadas, descomplicadas, sensuais, de preferência sexy. Devemos ser educadas e organizadas,  desenrascadas, autónomas, espertas, companheiras, amigas, decididas, bem dispostas e interessantes, muito interessantes. Já disse que o ideal é que sejamos bonitas? Não obrigatoriamente, mas temos de ter um bom rabo, umas pernas daquelas e umas mamas apetitosas. Se os lábios forem carnudos, melhor. Se isto para uns parece o protótipo da mulher perfeita, para outros é, no mínimo, duvidoso. Devemos ser, acima de tudo, inteligentes e donas de um sentido de humor apurado, inteligentes ao ponto de ter a sensibilidade de saber que uma opinião deve ser cuspida com conta peso e medida, caso contrário é estar a ser teimosa e intolerante, ter um sentido de humor apurado, mas não fazer da parvoíce um lema de vida. Se és parva ao ponto de soltar uma piada hilariante com a simples acção de uma folha a cair no chão, deixam de te levar a sério e perdes aquele estatuto de princesinha discreta e algo tímida, que cora perante o elogio. Devemos ser amorosas e dedicadas, mas ligeiramente ariscas e só um bocadinho provocadoras, fofinhas sem ser fofinhas, dá para perceber? Descomplicadas mas com aquele poder inexplicável de saber complicar quando tudo se torna demasiado prático, sim, porque uma mulher demasiado prática até chateia, não dá pica, não alimenta o desafio. Devemos ser sensuais, de preferência sexy, ok, sensuais e de preferência sexy, sempre. Devemos ser educadas e organizadas, não é de bom tom uma mulher dizer asneiras assim do nada, mas de vez em quando, um foda-se dito com toda a elegância, não traz mal ao mundo. Há que saber ter sentido de oportunidade. É uma espécie de acertar nos números do Euromilhões sem saber a chave certa. Devemos ser desenrascadas mas com algum sentido de dependência, não consigo viver sem ti, mas até consigo estar sem ti, olha não sei, às vezes sim, outras vezes não. Autónomas. Temos de ser autónomas fazendo transparecer o quanto precisamos deles, espertas mas não mais que eles, companheiras, companheiras é bom, amigas, mas não ao ponto de esperar que eles nos confidenciem cenas de gajo. Decididas, sim, mas nada de abusos, mulheres demasiado decididas assustam. Personalidades fortes é bem, mas demasiado fortes é um exagero. Alegres. Ah, alegres mas, quando é preciso, saber dar azo ao piquinho a drama, caso contrário parecemos pouco emocionais, frias, umas aliens sem coração. Já disse que o ideal é que sejamos bonitas? Não obrigatoriamente, mas temos de ter um bom rabo, umas pernas daquelas e umas mamas apetitosas. Se os lábios forem carnudos, melhor. Este jogo de cintura é mais difícil do que tentar levar uma colher de sopa à boca com a ajuda dos cotovelos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A saudade é doce, não é?

Pegava na colher, raspava os últimos pedaços de doce de morango do fundo, barrava a torrada e tinha sempre o mesmo gesto logo de seguida: enchia o frasco de água meio morna, meio quente e deixava-o no lava-loiça para ser lavado mais tarde com o prato e o copo e os talheres. Depois, quando o lavava, pensava sempre que podia dar-lhe alguma utilidade. Uma jarra para flores pequenas ou um pote para tremoços ou um mealheiro ou. Ia acumulando frascos de doce vazios no armário e, na verdade, só muito raramente lhes dava uso. Até ao dia que se lembrou de criar um frasco-de-matar-saudades. Na cabeça dela, o frasco-de-matar-saudades ia ser um frasco onde pudesse acumular recadinhos amorosos, palavras ou pensamentos, tudo escrito em pequenas tiras de papel, que eram depois enroladas com todo o cuidado, como aquelas que vivem dentro dos bolos chineses da sorte. Quando o frasco estivesse cheio quase a transbordar, assim como o amor dela por ele, quando não lhe coubesse nem mais um papel, ela deixava-lhe o frasco na mão para que ele, cada vez que sentisse saudades daquelas que não se aguentam mais, pudesse retirar um papelinho do frasco. Ou três, porque há um ditado que diz não há uma sem duas nem duas sem três. Ou muitos, porque não há regras nem no amor nem nas saudades. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Word

No word.